sexta-feira, 29 de maio de 2015

Matemática por opção, professora por diversão

Iniciar um relato refutando uma crença já disseminada pode ser uma boa estratégia para desconstruir alguns conceitos enraizados nos leitores e aumentar as chances de aceitação da ideia central a ser exposta. Pois bem, dividamos este texto, então, em três etapas:

1. Desconstruindo. Não decidi ser professora de Matemática por amar Matemática. Quando optei por cursar Matemática, eu achei que poderia ser alguém notável como Pitágoras ou Euclides. Não sabia ao certo o que fazer e me aventurei a entender o mundo da "ciência das ciências". Ao longo dos dois primeiros anos da faculdade a ficha foi caindo: eu não amo a Matemática! À nível superior, muitas vezes a Matemática me traiu e me decepcionou. Diversas outras vezes decepcionei a mim mesma tentando agradar à Matemática. O que me fez continuar neste caminho? Vivi uma descoberta espetacular: eu gosto de dar aulas. Hoje eu entendo que somos grandes amigas e que não poderia mais viver sem ela. Não apenas porque ela platonicamente me encanta, mas principalmente porque ela me leva à escola, à sala de aula e, especialmente, aos meus alunos.

2. Referenciando. Quando eu era adolescente, costumava brigar muito com a minha mãe. Simplesmente porque ela era chata e implicava comigo. Eu queria ir pra festa e chegar em casa de madrugada, ela não deixava; queria conhecer pessoalmente pessoas que encontrava na internet, ela implicava; queria comer no McDonalds umas três vezes por semana, ela proibia. Eu não aguentava ela mandando na minha vida o tempo todo! Que droga! Eu já era bem grandinha pra tomar as minhas decisões sozinhas, né? Não. Dez anos depois, eu entendi que não. Entendi que eu era a chata e que ela me ama mais que tudo no mundo. Que todos os "não"s que ela me disse até podiam ser dolorosos ao me ver triste em resposta, mas era a escolha certa pra me proteger e pra me poupar de maiores sofrimentos futuros. Hoje eu sei que ela seria capaz de tudo por mim. Me defende como uma leoa preserva seus filhotes. Me encoraja e me dá suporte quando preciso. Me consola quando o mundo me magoa. Me dá colo, estimula mas também me corrige quando cometo erros. Enfim, me educa.

3. Construindo. Meus alunos. Meus amores! Cada qual com sua peculiaridade e extravagância. Meus pestinhas que vivem aprontando e fazendo palhaçada nos momentos menos oportunos. Vocês não fazem ideia do imenso carinho que guardo por vocês. Os meus dias não teriam a mesma graça sem vocês. Sei que muitas vezes a figura do professor não representa mais do que um cara chato que fica falando de trigonometria ou geometria analítica umas 2h por semana, evitando que você possa dormir um pouquinho mais. O meu objetivo aqui é dizer pra vocês que, apesar de também adorar acordar às 12h, eu acordo feliz às 6h30 quase todas as manhãs porque sei que em alguns minutos vou estar com vocês. E me divertir com vocês. É claro que tem suas exceções, mas em sua maioria os meus alunos são incríveis!

Mais do que nunca, tenho a certeza de que nasci pra ser professora. O professor é um camarada carente, não é mesmo? Mesmo tendo diversos amigos pela vida, ele vai pra sala de aula conhecer e se relacionar com mais umas 200 pessoas por ano - no mínimo - e vai acumulando essas preciosidades por uns 20 anos, se não 25 ou até mais. Fico imaginando quantos fofoletes ainda terei o prazer de encontrar e me divertir por tantos anos. Mal posso esperar :)

Mas nem tudo são flores, amigo. Muitas vezes nos decepcionamos e nos magoamos também. É deveras complicado. Contudo, o que mais me corta o coração é ver um aluno triste, desmotivado, magoado ou desencorajado. E é aí que entra o referencial apresentado acima. Tenho vontade de pegar os meus fofoletes no colo e dar carinho pra eles. Ainda que não faça tanta diferença, é importante que vocês saibam que o meu objetivo não é ensinar Matemática, mas sim ser espectadora e colaboradora das vitórias individuais de vocês. E, para tal, eu vou lutar por cada um. Seja para defendê-los como uma leoa ou para ajudá-los a serem seres humanos melhores. Não melhores do que ninguém, mas o melhor que cada um de vocês pode ser. Quero que saibam que eu acredito inteiramente na capacidade de TODOS vocês e que eu estou disponível para otimizar suas probabilidades de sucesso sempre que precisarem, com todo o amor possível e imaginável.

Talvez o título mais adequado pra esse texto fosse "Matemática por opção, professora pelo coração".

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